LENDA ROMÂNTICA
Washington Irving e a Redescoberta da Alhambra
Como uma ruína negligenciada se tornou um ícone romântico — a história de Washington Irving, dos viajantes que o seguiram e das lendas que ainda tingem a Alhambra.
Check dates and availability ↗O palácio esquecido
É difícil imaginar hoje, mas durante longos períodos após a conquista cristã, a Alhambra caiu no abandono. A corte mudou-se, os palácios passaram a servir propósitos menores e, no início do século XIX, partes do complexo estavam em ruínas, com ocupantes e famílias modestas a viver entre os salões nasridas em degradação. O golpe mais infame veio durante a ocupação napoleónica, quando tropas francesas guarneceram a Alhambra e, ao retirarem-se em 1812, fizeram explodir várias das suas torres; reza a tradição que uma demolição ainda mais devastadora só foi evitada graças a um habitante local que desativou os explosivos — uma história geralmente contada como lenda. A cidade-palácio que fora o orgulho de al-Andalus foi, durante algum tempo, uma ruína romântica em vez de um monumento protegido. Esse declínio é o pano de fundo essencial para a sua redescoberta.
Um americano na Alhambra
Em 1829, o escritor e diplomata americano Washington Irving chegou a Granada e, curiosamente, foi autorizado a instalar-se no próprio Alhambra, alojando-se durante algum tempo em aposentos entre os próprios palácios. Percorreu os pátios de dia e de noite, ouviu as histórias dos guardas e dos moradores locais que ali viviam e mergulhou na atmosfera daquelas salas em ruínas, banhadas pelo luar. Dessa experiência nasceu o seu famoso livro, "Contos da Alhambra", publicado em 1832 — uma mistura de relato de viagem, história e folclore recontado que capturou a melancólica magia do palácio para um vasto público internacional. Irving não descobriu a Alhambra, claro; mas mais do que ninguém fez o mundo apaixonar-se por ela, apresentando-a como um lugar de encantamento, glória desvanecida e lendas meio esquecidas.
Lendas da colina
Parte do dom de Irving foi reunir e popularizar as histórias que se agarravam à Alhambra, e muitos visitantes ainda as recordam vagamente enquanto caminham. Há contos de tesouros mouros encantados escondidos nas abóbadas, à espera da pessoa certa para quebrar o feitiço; de princesas de amor impossível encerradas nas torres; e, mais duradouramente, a lenda negra associada ao Salão dos Abencerragens, onde se diz que uma família nobre foi massacrada, com o seu sangue supostamente a manchar a fonte — uma história macabra geralmente tratada como folclore e não como documento histórico. Estas lendas não são factos sóbrios, e um bom guia o dirá, mas fazem parte da textura cultural da Alhambra. Conhecê-las acrescenta uma camada de romance às pedras, desde que as encare com leveza, como as histórias atmosféricas que são.
Os viajantes que seguiram
Irving foi o mais famoso de uma vaga de viajantes, artistas e escritores da era romântica que fizeram de Granada um local de peregrinação. Visitantes britânicos como o escritor Richard Ford, cujo guia vívido moldou a forma como uma geração via Espanha, e artistas topográficos como David Roberts, cujas gravuras atmosféricas circularam amplamente, ajudaram a fixar a imagem da Alhambra como a grande ruína romântica da Europa. Os seus livros, esboços e pinturas transformaram o palácio num símbolo de um passado mourisco perdido e exótico, que apelava fortemente aos gostos do século XIX. Esta enxurrada de atenção teve um efeito muito concreto: construiu a reputação e a pressão que acabariam por salvar o local. A Alhambra que visitamos hoje, protegida e restaurada, deve uma verdadeira dívida a estes entusiastas românticos que insistiram que o mundo deveria importar-se com uma colina em ruínas na Andaluzia.
De ruína a Património Mundial
A fama gerada pelos românticos ajudou a mudar as atitudes oficiais. Ao longo dos séculos XIX e XX, a Alhambra passou cada vez mais para os cuidados de restauradores e conservadores, que consolidaram as torres, descobriram e repararam a decoração e, gradualmente, replantaram os jardins — o trabalho que confere ao local grande parte da sua forma atual. Esta longa campanha de proteção culminou em 1984, quando a Alhambra, juntamente com o Generalife, foi inscrita como Património Mundial da UNESCO, mais tarde acompanhada pelo Albaicín. Quando a visita hoje, vale a pena lembrar que esta gestão cuidadosa é relativamente recente, e que o palácio esteve quase perdido. A bilhética rigorosa, com horários marcados e limite de capacidade, que por vezes parece tão exigente, é o rosto moderno do mesmo impulso que os românticos iniciaram: a determinação de que a Alhambra deve ser preservada, e não desperdiçada.